quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Kevin Carter, o abutre da fome e a criança.


Conheça a história desta foto acima, do fotógrafo que a fez e o fim trágico (suicida) disso tudo.


Arranha céu
Por Diego Calvo
Do FL

Esta foto foi tirada em março de 1993, no povoado de Ayod, no sul do Sudão, pelo fotógrafo sul-africano Kevin Carter. Com ela, Kevin ganhou o prêmio Pulitzer de fotografia, um dos maiores prêmios dados a repórteres fotográficos no mundo. Cerca de um ano depois, o fotógrafo se matou!
A história que se segue teve como base o livro escrito por Greg Marinovich e João Silva, o “Clube do Bangue Bangue”, e alguns achados na internet. O texto é um pouco longo, mas vale a pena perder alguns minutos para lê-lo.

A áfrica do sul passava por um período difícil de sua história. Os conflitos armados buscavam o fim do Apartheid no país, regime que segregava os negros dos brancos. Milhares de mortes manchavam de vermelho o solo sul-africano. Mandela ainda estava preso, mas as vésperas de ser solto.

O problema é que o conflito se restringia a negros contra negros. O CNA, partido de Nelson Mandela, que era contra o Apartheid, e o Inkatha, partido Zulu financiado pelos brancos, se matavam aos montes em chacinas e conflitos animalescos.

Aí entra as figura do português João Silva de dos sul-africanos Greg Marinovich, Ken Oosterbroek e, nosso personagem, Kevin Carter. Este seleto grupo passou a ser chamado, pela mídia mundial, de Clube do Bangue Bangue.

Dos quatro, Kevin era o mais sensível as tragédias e se entregava às drogas com muita facilidade. Num destes períodos de depressão, entregue ao vício, com problemas financeiros e mordido por uma paixão unilateral a uma jovem, que Kevin se interessou em partir para uma viagem. Isso se deu quando descobriu que seu amigo, João Silva, se preparava para viajar ao Sudão, pais em conflito e varrido pela fome. Kevin viu aí a oportunidade de deixar para trás todos os seus problemas e se dedicar a esta experiência.

Seria assim: Eles partiriam com a ONU junto com um carregamento de comida e remédios. Ficariam por lá por uma semana, fotografando, e voltariam no próximo carregamento.

Uma série de acontecimentos impediram que as coisas fossem como combinado e, depois de desapontamentos e nervosismo, conseguiram embarcar para ficarem apenas um dia.

Já lá, começaram a andar, cada qual para um lado, em busca da foto perfeita. A miséria era aterradora. Homens em farrapos e incrivelmente magros, carregavam nos ombros fuzis.

Nestas andanças, Kevin avistou uma criança, claramente vítima de desnutrição, que caminhava em direção ao posto de ajuda da ONU. Em dado momento, ela parou e se agachou, talvez pela fraqueza de suas perninhas finas, Kevin se agachou também e enquadrou-a na foto. Para sua surpresa, um abutre entrou no quadro, então, sagaz como todo repórter fotográfico deve ser, começou a fotografar.


Retornando para a África do Sul, mostrou as fotos para seus amigos e eles ficaram maravilhados. O New York Times precisava ilustrar uma matéria e pediu o material para a dupla. Quando receberam a foto de Kevin, não tiveram dúvidas, estamparam na capa.

A foto correu o mundo inteiro, admirando e sensibilizando as pessoas. Não foi surpresa que o prêmio Pulitzer viesse. Kevin, quando recebeu a notícia que havia ganhado o prêmio que todo fotógrafo deseja, estava completamente drogado, jogado novamente à um mar de depressão. Foi, inclusive, difícil de explicar para ele o quão importante era aquele fato.

Foram milhares de elogios, crianças japonesas lhe mandavam cartas: “quando eu enfrentar algum problema na vida, lembrarei da sua foto e seguirei em frente”, dizia uma delas. Até a ONU recebeu muitas doações para cuidar melhor do Sudão depois daquela foto. Isso ergueu a auto estima dele que já fazia planos depois de ficar famoso e ter ganhado um belo dinheiro.

O abutre da fome, como ficou conhecida a imagem, também trouxe muitas críticas. O que você fez depois que tirou a foto? Você deixou a menina morrer? Você não poderia tê-la ajudado? O pior abutre não é o da fome, é você! Esta última foi recebida como um tiro pelo fotógrafo.

Realmente ele não ajudou a criança, o seu trabalho era fotografar e foi o que ele fez. Mais que isso, ele ajudou um país inteiro. Mas para os críticos, isso era nada.

De feliz, Kevin voltou à depressão. O cume de sua decadência se deu no início de 1994.  Em um dos últimos conflitos, antes das eleições que colocariam Nelson Mandela no comando do país, Ken Oosterbroek, o fotógrafo mais próximo de Kevin, foi baleado e morreu.               

Alguns meses depois, dando incríveis “mancadas” com agências que o recrutavam para fotografar, mas que ele, por algum motivo, acabava não entregando as fotos, Kevin parou seu carro debaixo de um eucalipto, de frente a um parque que costumava brincar quando criança. Pegou uma mangueira verde de jardim, ligou-a ao escapamento com uma fita adesiva, enfiou a mangueira por uma fresta na janela para dentro do carro, entrou e ligou o motor.

Drogado, a medida que o gás carbônico entrava na cabine, substituindo o oxigênio, ele escrevia uma carta de despedida (muito confusa). Sua vida finalmente havia chegado ao fim.

Sua morte foi notícia no mundo todo. O abutre da fome entrou para a história das fotos mais emblemáticas de todos os tempo. Mas o que aconteceu de fato a criança? 

Segundo o jornal espanhol El Mundo, o menino fotografado por Kevin Carter sobreviveu à fome e morreu mais tarde, em 2006, de febre.

Ampliando a foto, os repórteres descobriram que a criança estava com uma pulseira da ajuda humanitária com a sigla T3, a partir daí, recontaram a história indo até o Sudão.  


Kevin morreu, mas o menino havia sobrevivido à fome!  
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